Os paladinos da mendigagem
«Vamos ser rigorosos sobre o que isto é e o que não é. Não, não se trata de imigrantes ilegais: os cidadãos romenos são comunitários e têm direito à livre circulação pelo território da União. E, sim, isto é uma limpeza étnica, ou seja, uma expulsão de um dado território de uma população circunscrita por critérios étnicos.» - Rui Tavares, no seu blogue, sobre as “expulsões francesas”.
Vamos lá então ser mesmo rigoroso sobre o que isto é e o que não é. Sim, sim, trata-se de imigrantes ilegais: não, os cidadãos romenos, ou outros, não têm o direito de acampar num país vizinho. Os habitantes da Guarda, por exemplo, não podiam acampar nos Campos Elísios. A livre circulação não compreende o livre acampamento e afirmá-lo é desconhecer as regras da livre circulação.
«Limpeza étnica»? Rui Tavares sabe bem o que quer sugerir quando fala em «limpeza étnica», mas devia analisar bem as condições que foram dadas pela República Francesa a comunidades inteiras de imigrantes ilegais, que só revelam respeito pelo Homem e estão longe de poder ser comparadas às limpezas étnicas que a nossa história regista.
Mas Rui Tavares, ao longo de tantas linhas, não aborda os problemas da Roménia nem caminhos para ajudar estas pessoas – os “pequenos”, como apelida. Será que estão bem como estão, arrumados assim em acampamentos, longe da nossa vista? Será que está resolvido o problema?
Não, não está. E a pequenez é nossa se nos conformamos com esta miséria. «Mais vale ser mendigo no estrangeiro do que trabalhar na Roménia», afirmou um repatriado, citado pelo DN. Pois bem, como parece evidente, o problema está na Roménia e a solução não está em França. E quem diz Roménia podia dizer outro país com problemas internos. E quem diz França diz outro país com problemas de imigração ilegal.
A não ser que nos convençam, Rui Tavares e outros, que devemos defender a mendigagem.
